domingo, 15 de janeiro de 2012

Molha que Passa

       Ainda não tinha dado meia noite, mas meus olhos começavam a querer descansar. O computador ligado na minha frente não emanava luz suficiente para mantê-los abertos. Piscava, freneticamente, enquanto meus dedos batiam ritmados no teclado.
Fazia frio e as janelas da sala estavam abertas, era fácil ouvir a conversa do vizinho, um cachorro latindo e a chuva, qua caía no parepeito. Os pingos violentos, não parariam de cair tão cedo, o jeito era aproveitar.
Quando era pequena, gostava de ir à praia, à piscina, de sentir a pressão da água da cachoeira nas minhas costas; trocava tudo por um banho de mangueira. Meu sonho era ser surfista, mas se fosse muito difícil, optaria por virar pirata. Prometi para mim mesma que viveria em um barco batizado de "Onda", teria uma tripulação que soubesse nadar os quatro estilos e desbravaria mares ainda não descobertos. Quem sabe um oceano, um golfo ou até mesmo uma lagoa não teriam o meu nome? Quem sabe?
Depois do bocejo mais longo da noite, até então, decidi que era hora de ir dormir. A casa estava mais silenciosa do que nunca; sempre morei sozinha, mas as calopsitas da vizinha me perturbavam demais. Felizmente, ou infelizmente, elas haviam morrido há uma semana.
Andei pelo longo corredor que mais parecia uma linha do tempo. Eram várias fotos, memórias e ilusões. Afinal, hoje me encontrava com pouco mais de 40, pais divorciados, nenhum marido e alguns poucos amigos forçados do trabalho. Em algum ponto eu perdi algo, mas já havia levado tempo demais calculando meus erros.
Ao me deitar, todo aquele sono que estava me incomodando se foi, fechava meus olhos, mas eles pediam para ficarem abertos, me virava de um lado para o outro, remexia os lençóis. Nada. Faltava alguma coisa e uma parte de mim sabia disso; algo estava errado, mas o que? Refiz minha noite: jantei, arrumei a cozinha, escovei os dentes, fui no computador e vim deitar. Não havia erro.
As janelas estavam fechadas, talvez meu quarto só precisasse ser refrescado. Empurrei as cortinas e deixei o vento bater em meu rosto. A chuva, companheira de toda minha vida ainda caía. As gotas que podia ver, iluminadas pelo poste, me lembravam as que observava na luz da sacada da minha casa de infância; e o barulho da goteirame remetia ao chuveiro quente que minha mãe ligava após um banho de chuva. 
Olhava para o céu e para o chão, as gotinhas mais pareciam um fio ligando opostos e, cada vez mais, eu sentia o aroma de terra molhada, velho conhecido. Por impulso, desci as escadarias e deixei que a água me molhasse. Meu pijama grudou gelado no corpo e meu cabelo estava liso e embaraçado. Abri os braços e levantei a cabeça, queria que os pingos lavassem minha alma, levassem meus problemas, sumissem com as preocupações.
E, nessa madrugada escura e triste, voltei para dentro ensopada, como uma criança desobediente. E sorri.

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